domingo, 14 de fevereiro de 2016
COCEIRA
Os dedos do meu pé coçavam. Incomodavam agudamente cada canto das minhas unhas enquanto eu sofria de uma dor também aguda em meio às costelas. Algo parecia comprimir os meus ossos ao ponto deles quase se quebrarem, todavia os dedos do pé chateavam muito mais. Eu sabia por que meu corpo se obstringia, não era novidade para nenhuma nova cara que eu pudesse fazer de fronte ao espelho. Eu queimava alguém dentro de mim naquele exato momento e por algum motivo psico-biológico meus pulmões eram afetados pelos ossos que os abraçavam. Não ardia como o fogo deveria arder. Também não importavam os sintomas e sim as causas. Eu apenas sabia. Era uma oferenda de uma metade para a qual eu me dei inteira que consumiu o meu todo e jamais sequer foi a metade que eu supus. Ela esbraseava dolorosamente e me fazia bem ciente do processo de incineração. Agora... Por que os dedos do pé coçavam? Não sei.
CLONAZEPAM IV
sinto sua falta
sobre a estante
sob a língua
derretido
esparramado
tão de casa.
o esfarelar doce
sujando os dentes,
moldando os sonhos
por baixo do pano preto.
o livramento
não-burocrático
e particular.
derradeiro suspiro
antes de afundar num rio de nada
e lá nadar com cada nada.
eu sinto falta
daquele nada.
terça-feira, 12 de janeiro de 2016
FELIZ ANO NOVO
Onze de Janeiro de 2016
- Feliz ano novo!
Há exato um dia eu estava evocando o nome de quem acabara de me desejar felicitações por um ano que já não era mais tão novo assim. Eu podia supor suas intenções, já que não existia entre nós nenhum interesse ou vínculo que não fosse carnal desde a primeira vez que, de fato, puis meus olhos em cima dele.
- Passei mesmo para deixar um beijo.
Eu só conseguia conceber a imagem e o toque daquela boca macia passeando por todas as partes habitáveis do meu corpo enquanto apertava com uma das mãos tudo que fosse palpável em mim sem soltar a outra dos meus cabelos, assumindo o controle que no fundo eu sabia que era meu.
A minha resposta deve ter sido qualquer coisa como "igualmente e obrigada pelo beijo". A parte boa dessa retórica clichê é que o destinatário da minha mensagem sabia exatamente o que havia por detrás daquela coisa qualquer que ele recebera como resposta. Trocamos uma dúzia de palavras convenientes que quase colocaram nossa conversa em um nível "sóbrio, comum e casual".
- Vontade da sua boca me lambendo.
- Não diga isso.
- Pois é.
- Pois é.
- Dito isso, você tem o endereço.
- Sim, eu tenho.
Era quase noite de uma segunda-feira e que maldito dia! Aliás, que maldito carro eu comprara! De quem foi a ideia de comprar um carro com o final da placa 1? O rodízio tinha acabado de retornar de seu período sabático de férias. Sim. Naquele exato dia. E como eu já supunha, não tínhamos tempo para nos dar ao luxo de ter um encontro em um horário combinado, com direito à barba, cabelo e bigode. Assim como a vontade de rasgar desesperadamente as roupas dele com os dentes logo após o "oi, tudo bem?", o tempo também era desesperado e não nos permitia tais regalias.
Eu já estava a caminho do banho um pouco antes do inflamável "vontade da sua boca me lambendo". Acabei por fazer o que já estava nos planos. Me lavar e aproveitar toda aquela água quente caindo nas costas para lembrar do pau-modelo-dos-objetos-fálicos-da-cidade-de-Pompeia-o-qual-eu-gostaria-de-ter-um-molde-para-encomendar-um-de-silicone-só-para-mim em todas as suas performances hollywoodianas e todos os seus ângulos que enchiam os olhos (e todo o resto) de tesão. E o gosto daquele pau? Era algo como néctar dos deuses misturado ao cheiro de condicionador que vinha dos cabelos dele e tomava seu corpo por completo. E sim, eu demorei um pouco mais no banho do que devia. Eu me decidira mas não havia dito a ele nada a respeito. A verdade é que não me surpreendi quando ele assumiu a postura de quem não precisava de uma resposta certa, mas que sabia que meia dúzias de palavras suas reafirmariam o que já estava certo para mim.
- Vem gostosa, cheirosa. Vem. Eu gosto.
- Vou.
- Eu quero te comer inteira hoje!
- Vale uma multa de trânsito?
- Vale.
Eu sabia que valia muito mais do que trinta e cinco pontos na carteira, um carro apreendido e quatro pneus furados. Só não quis dar o braço a torcer.
Qualquer roupa servia. Bati a porta do carro e devo ter ouvido meu carro cantar pneus de alegria ao sair de casa. Vinte e cinco minutos e eu estava lá. Meu cheiro chegou antes.
- Entra quando chegar.
Assim que encostei a mão na porta entreaberta para empurrar, ela foi puxada por dentro e em uma sala escura ouvi um "oi" enquanto assistia minha camiseta sumir e minhas mãos correrem para o fecho do jeans dele. "Tudo bem?" e eu estava sem óculos, ele sem calças e uma força maior tentava arrancar meu shorts das maneiras mais improváveis possíveis. "Muito bem, e você?" ele estava sentado no sofá e eu estava no meio de suas pernas salivando pelo pau duríssimo guardado na boxer branca. Meus dedos brincavam sobre o formato que se desenhava no tecido da cueca enquanto ele emaranhava os dedos nos meus cabelos e gentilmente forçava meu rosto em direção ao caminho que já constava nos planos. "Tô bem... você é safada..." passava minha língua por toda a parte que pudesse se chamar de pau, esfregava-o em meu rosto sem tirar os olhos dos olhos dele que jamais parei para prestar atenção na cor. Engoli aquilo tudo até onde dava e me sentia orgulhosa por saber que ele nunca entraria por inteiro em nenhuma boca por ser magnificamente enorme. Eu o masturbava e chupava enquanto acariciava suas bolas e morria de prazer com seus gemidos de satisfação. "Gosto do seu pau, você sabe..." mãos firmes me agarraram e jogaram de quatro no sofá. "Quero comer você toda!" Essa foi a frase que antecedeu uma estocada incrível que me deixou com os sentidos confusos por alguns segundos. Então outra. E outra. Rápidas. Precisas. Já estávamos no quarto. Já éramos cavalo e cavaleira. Ele me interrompia a todo instante na ânsia de não gozar e eu pirava no transe de ouvir os gemidos e gritos dele os quais imploravam para que eu parasse. "Eu quero gozar na sua boca", ele disse. "Na minha cara" eu disse. "Eu gosto que você beba". "Eu gosto de assistir você gostar".
Doce na minha boca. Trinta minutos depois do "oi" eu estava no carro a caminho de casa.
segunda-feira, 14 de dezembro de 2015
CLONAZEPAM III
que as nuvens chovam ácido,
e os gritos,
desesperados,
ensurdeçam os acordados,
que o caos se instale em toda parte,
que os ventiladores emperrem
no verão de Dubai,
que as baratas vivam
e que o mundo inexista,
assim como os micênicos,
assim como você.
não importa.
que as buzinas dos carros desparem
e nada as interrompam
e as sirenes das ambulâncias
enlouqueçam a cidade
procurando por ninguém.
não importa.
que as dores entre as costelas
permaneçam anestesiadas,
mas ali,
pulsantes.
e que o frio na barriga da tristeza
congele tudo o que restou de nós.
não importa.
que as flores nasçam,
morram,
que os dias passem,
em branco,
sem fome,
sem sede,
sem recordação.
não importa,
não enquanto durar o paraíso do esquecimento.
domingo, 6 de dezembro de 2015
CLONAZEPAM II
duas miligramas
você engole,
nada.
ele está aqui em algum lugar,
ele deita ao seu lado na cama,
ele sussurra o que você quer ouvir.
ele não é real.
quatro miligramas
você chupa,
algo.
as costas pesam,
os olhos fecham
mas, você ainda está aqui
e ele também.
ele lhe beija,
se coça em você,
lhe olha,
lhe ama.
ele não é real,
ele está longe,
ele não lembra de você,
ele não existiu.
seis miligramas
você pensa,
não.
os créditos não subirão agora.
amanhã ele volta
e será um lindo dia.
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