sexta-feira, 6 de maio de 2016

VERBO PRECISAR

preciso de mim 
não do outro 
precisas de ti 
diferente da minha primeira pessoa
não me precisas 
as nossas primeiras pessoas 
elas também não se precisam 
mas nos precisam
paradoxo oblíquo
egoísmo singular
e necessidade plural
antagonismo do pensar 
e se eu pensar 
eu "vai" embora
e se tu pensares
tu também "vai" embora 
mergulha tu no escuro 
segue o cheiro do eu
faz nós de olhos fechados
abre quando precisares de "eu"
abro quando eu for tu
 

quinta-feira, 28 de abril de 2016

FORA DE TI (teu) AQUÁRIO

Fernando, Fernando... és tu o corruptor, o bandido e, Fernando, que engano foi dar a ti o pulso meu para tuas amarras e pular minha janela rumo ao teu enlace.
Que egoísmo onde me descobri! Deixei a vida a fim de tua presença. Neguei a minha casa pelo teu leito álgido e teu fogo ilusório. 
Leviano, inconstante. Eu queimei minhas mãos por ti, lavei o rosto no magma da tua ingratidão e fui tudo! Tudo o que arde e incendia. Me ceguei e o meu inflame te colocou para fora. Desprestei-me a ti.
Não te doeu. Não te sangrou uma lágrima. Eu verti a nossa vida em seiva vinho por nós. 
Agora me presto. Então me digas para quê. 

segunda-feira, 25 de abril de 2016

O EXTRAORDINÁRIO AGORA

o verme me chafurda 
comeu, por fim, o que me restava 
e das vísceras sobrou um escarro de mim,
que não sou eu 
que não é meu
e tem medo.
o verme dilacerou meu nome,
agora me chamo nada,
de chama tenho nada 
e o que quero é nada.
o verme fez vencer o maldito,
o nojento chamado apreço,
que por aí se diz construir o que não se destrói. 
o verme se olha no espelho,
se deita para dormir,
se põe à mesa,
fala, escuta...
o verme vive.
eu, não mais. 

domingo, 14 de fevereiro de 2016

COCEIRA

Os dedos do meu pé coçavam. Incomodavam agudamente cada canto das minhas unhas enquanto eu sofria de uma dor também aguda em meio às costelas. Algo parecia comprimir os meus ossos ao ponto deles quase se quebrarem, todavia os dedos do pé chateavam muito mais. Eu sabia por que meu corpo se obstringia, não era novidade para nenhuma nova cara que eu pudesse fazer de fronte ao espelho. Eu queimava alguém dentro de mim naquele exato momento e por algum motivo psico-biológico meus pulmões eram afetados pelos ossos que os abraçavam. Não ardia como o fogo deveria arder. Também não importavam os sintomas e sim as causas. Eu apenas sabia. Era uma oferenda de uma metade para a qual eu me dei inteira que consumiu o meu todo e jamais sequer foi a metade que eu supus. Ela esbraseava dolorosamente e me fazia bem ciente do processo de incineração. Agora... Por que os dedos do pé coçavam? Não sei. 

CLONAZEPAM IV

sinto sua falta
sobre a estante
sob a língua 
derretido 
esparramado 
tão de casa.
o esfarelar doce 
sujando os dentes,
moldando os sonhos 
por baixo do pano preto.
o livramento 
não-burocrático 
e particular.
derradeiro suspiro
antes de afundar num rio de nada 
e lá nadar com cada nada.
eu sinto falta 
daquele nada.